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Bahia, balneário sem cultura
O Brasil tem três capitais, a de fato, na Avenida Paulista, em São Paulo; a de direito, em Brasília; e a oral, a Rede Globo. Desde que a Bahia perdeu o posto de capital da Colônia pela necessidade de escoamento do ouro das Minas Gerais através do porto do Rio de Janeiro, a nossa tendência é ser a capital da cultura, um negócio tão rico quanto o da cana-de-açúcar, se houver produção e engenho. Nossos artistas são motores de alguns dos movimentos artísticos mais importantes do País. Não há Bossa Nova sem João Gilberto e não há Cinema Novo sem Glauber Rocha. Sem Milton Santos, o pensamento contemporâneo brasileiro não existe. Olodum, Ilê Aiyê e Timbalada são marcas capazes de produzir o mais vigoroso turismo cultural do País. E, no entanto, Salvador nunca recebeu uma secretaria capaz de pensar a diversidade dessa cultura, ou impulsionar seus meios de produção.
Sua realização de cinema é bissexta, seu teatro, há pouco tempo vigoroso, está voltando à produção zero, e se não fora a axé-music, ai, ai, ai, o que seria de nós, Sr. prefeito? A sensação, em 2008, é que fechamos as portas da cidade na Quarta-feira de Cinzas para abri-las no sábado de Carnaval de 2009. Nada de significativo aconteceu no período senão as eleições, como se fôssemos um balneário, lugar belíssimo sem vida cultural, porque se cultura é tudo que a espécie humana cria, estamos empenhados, dependendo da natureza, em enfiar peidos em cordões para fazer colares que nunca ficam prontos. Nem há consumidores. A Secretaria de Cultura do Estado está, como declara, atuando nos municípios mais necessitados. Em Salvador, por onde passou com seus assessores, não nasceu mais relva.
Podemos aproveitar este início que, precisamos criativo, para engendrar a Secretaria Municipal de Cultura, com um secretário escolhido pelos (poucos) artistas que ainda moram na cidade, porque a maioria se foi, fugindo da seca. Podemos instalá-la no Pelourinho, nos imóveis que seriam ocupados pela secretaria estadual que não tem por que permanecer em Salvador já que não atua para ela, e pode ser transferida, perfeitamente, com seus 500 funcionários, para um dos 416 municípios do Estado, com um PIB adequado à sua produção. Lajedão? Quem sabe?
Aninha Franco à Revista Muito (02/11/2008)
Escrito por Sirlene às 01h00
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