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Enfim, Cissa

Depois de tanto tempo de criado e deixado de lado eis que volto aos Mais de Mim blog jamais esquecido. Sempre busquei um lugar para colocar coisas que considero interessantes e falar o que penso postar as noticias foram fáceis difícil é escrever o que penso apesar de estar tudo claríssimo em minha mente (eu acho rsrs). Mais vamos lá depois de todo esse tempo eis que surgem minhas primeiras palavras e finalmente posso dizer que esse blog é Mais de Mim, o que há dentro de mim creio que as preferências musicais todas já conhecem espero agora poder passar um pouco dos pensamentos e fazer do blog um cantinho especial.
Escrito por Sirlene às 00h04
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Bahia, balneário sem cultura
O Brasil tem três capitais, a de fato, na Avenida Paulista, em São Paulo; a de direito, em Brasília; e a oral, a Rede Globo. Desde que a Bahia perdeu o posto de capital da Colônia pela necessidade de escoamento do ouro das Minas Gerais através do porto do Rio de Janeiro, a nossa tendência é ser a capital da cultura, um negócio tão rico quanto o da cana-de-açúcar, se houver produção e engenho. Nossos artistas são motores de alguns dos movimentos artísticos mais importantes do País. Não há Bossa Nova sem João Gilberto e não há Cinema Novo sem Glauber Rocha. Sem Milton Santos, o pensamento contemporâneo brasileiro não existe. Olodum, Ilê Aiyê e Timbalada são marcas capazes de produzir o mais vigoroso turismo cultural do País. E, no entanto, Salvador nunca recebeu uma secretaria capaz de pensar a diversidade dessa cultura, ou impulsionar seus meios de produção.
Sua realização de cinema é bissexta, seu teatro, há pouco tempo vigoroso, está voltando à produção zero, e se não fora a axé-music, ai, ai, ai, o que seria de nós, Sr. prefeito? A sensação, em 2008, é que fechamos as portas da cidade na Quarta-feira de Cinzas para abri-las no sábado de Carnaval de 2009. Nada de significativo aconteceu no período senão as eleições, como se fôssemos um balneário, lugar belíssimo sem vida cultural, porque se cultura é tudo que a espécie humana cria, estamos empenhados, dependendo da natureza, em enfiar peidos em cordões para fazer colares que nunca ficam prontos. Nem há consumidores. A Secretaria de Cultura do Estado está, como declara, atuando nos municípios mais necessitados. Em Salvador, por onde passou com seus assessores, não nasceu mais relva.
Podemos aproveitar este início que, precisamos criativo, para engendrar a Secretaria Municipal de Cultura, com um secretário escolhido pelos (poucos) artistas que ainda moram na cidade, porque a maioria se foi, fugindo da seca. Podemos instalá-la no Pelourinho, nos imóveis que seriam ocupados pela secretaria estadual que não tem por que permanecer em Salvador já que não atua para ela, e pode ser transferida, perfeitamente, com seus 500 funcionários, para um dos 416 municípios do Estado, com um PIB adequado à sua produção. Lajedão? Quem sabe?
Aninha Franco à Revista Muito (02/11/2008)
Escrito por Sirlene às 01h00
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http://br.youtube.com/watch?v=wfJv2e-7mIg
Escrito por Sirlene às 10h14
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Amar é querer envelhecer juntos...
Escrito por Sirlene às 18h31
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"Algumas feridas vão tão fundo que nunca cicatrizam"
Escrito por Sirlene às 20h29
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Caminhos Cruzados
Gal Costa
Composição: Indisponível
Quando um coração que está cansado de sofrer Encontra um coração também cansado de sofrer É tempo de se pensar, Que o amor pode de repente chegar Quando existe alguém que tem saudade de outro alguém E esse outro alguém não entender Deixe esse novo amor chegar, Mesmo que depois seja imprescindível chorar Que tolo fui eu que em vão tentei raciocinar Nas coisas do amor que ninguém pode explicar Vem nós dois vamos tentar,
Escrito por Sirlene às 17h40
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“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas quando tocares uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” C.G.Jung

Escrito por Sirlene às 16h28
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Fumaça é letal para fumantes passivos
A fumaça do cigarro representa um serio risco para saúde e pode matar fumantes passivos, tanto crianças quanto adultos, alertou um estudo da Direção de Saúde Pública dos Estados Unidos divulgado nesta terça-feira. “Os efeitos na saúde para fumantes passivos são mais profundos do que tínhamos pensado”, anunciou um comunicado do diretor de saúde publica dos EUA, Richard Carmona. “A evidência científica é agora irrefutável: a fumaça para fumantes passivos não é apenas um simples incômodo (...) É um sério perigo para a saúde, que pode levar a doenças e à morte prematura de crianças e adultos”, afirmou Carmona. Os mais vulneráveis são as crianças ainda em fase de desenvolvimento, já que “até uma breve exposição a fumaça tem efeitos colaterais imediatos no sistema cardiovascular”.
Escrito por Sirlene às 19h14
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Os sem namorados
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Numa sociedade como a nossa consumista ao extremo, o tal Dia dos Namorados, repleto de chamativas campanhas institucionais de manutenção hollywoodiana, conduz à febre das compras psicologicamente compensadoras e rentáveis para os mercados industriais e de vendas. Elas pensam no que podem ganhar: um perfume com cheiro de flor ou de Paris, uma bolsa de marca, couro legítimo, ou, quem sabe, prova cabal da paixão casamenteira, um anel de diamantes, a ser ofertado em jantar à luz de velas.
Outras, sabendo que seus namorados, maridos ou amantes engrossam as estatísticas do desemprego, sonham em menor escala, imaginam ser presenteadas com flores ou um lanche regado a “olhos nos olhos” com gosto de refrigerante da rede de fast food. Os internautas trocarão cartões musicais e criativos, animados, de fundo não tão profundo. Coisas de quem tem namorado.
Mas, e quem não tem? Bem, há promoções também prevista no bojo do sistema, de se arranjar um ou uma neste dia 12 de junho. Programas de televisão, concursos de rádios, revistas e jornais, tradicionais sorteios nos shoppings, muitas idéias tentam salvar os solitários para a troca de presentinhos no dia tão reverenciado . Resulta que estar sem namorado ou namorada chega a ser um insulto social. Como passar a tal efeméride “desacompanhadinho da silva”? Solitários e solitárias, uni-vos! Há que pleitear a criação urgente do “Dia dos sem namorados”. Um dia para os que caminham sozinhos, nos shoppings, teatros, cinemas, academias, restaurantes, igrejas, parques, feiras-livres, lugares afins.
Um dia para os que cozinham e comem sozinhos em frente a televisão. O “Dia dos Singles” poderia ter promoções nos supermercados, já que os solitários lotam as filas das caixas com carrinhos abarrotados de individualizados pãezinhos, bifes, cenouras, tomates, uma imensidade de produtos já embalados para um ser único, indivisível. O “Dia dos Frees”, livres por natureza conquistada, adquirida ou abortada, seria um dia especial.Eles pertencem a comunidade de maiores carentes de afeto, abandonados à própria sorte, amargando ou saboreando uma solidão estável.
Já é hora de criar o “Dia dos sós”. Há também as pessoas que nunca se casaram , ou não juntaram nada, nem trapinhos, como revelou o surpreendente censo 2000, devemos nos compadecer dos traumatizados, os que já tiveram sés pares, perderam, não recuperaram, cansaram de procurar novos amantes e desistiram de tentar de novo. ?Os marketeiros de plantão criariam slogans como, por exemplo: “amor e economia, uma só conta de luz, gás e telefone, unindo duas pessoas inteligentes”. Lindo! Manteriam o público informado, através de pesquisas, do que é mais vantajoso, escolher ficar só; bem ou mal acompanhado. As três opções lotariam os números 0800 com índices medidos diariamente avaliando o perfil dos entrevistados. O Jornal Nacional, apresentado pelo casal Fátima e Willian, exibiria, no dia da eleição final, o que os sozinhos escolheram para suas vidas, representando o prazer de compartilhar ou não as escovas de dentes, eis a questão. Aparecida Torneiros é jornalista e professora universitária de comunicação.
Escrito por Sirlene às 20h57
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O homem de cabeça de papelão
João do Rio No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social.
O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em idéias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo, cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalistas, ausência de conservadores, a Bolsa, o Governo, a Moda, e um aborrecimento integral. Enfim tudo quanto a cidade de fantasia pode almejar para ser igual a uma grande cidade com pretensões da América. E o povo que a habitava julgava-se, além de inteligente, possuidor de imenso bom senso. Bom senso! Se não fosse a capital do País do Sol, a cidade seria a capital do Bom Senso!
Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.
Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no um enfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrario do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.
Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.
Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os tramitas legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetings como aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.
— Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.
Escrito por Sirlene às 20h25
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O homem de cabeça de papelão (parte II)
— Mas não quero ser nada disso.
— Então quer ser vagabundo?
— Quero trabalhar.
— Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando — é vagabundo.
— Eu não acho.
— É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.
Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de idéias. Até alegre — qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por que? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!
Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:
— É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares...
O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:
— A perigosa mania de seu filho é por em prática idéias que julga próprias.
— Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?
Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.
No País do Sol o comércio ë uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas idéias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto. não o tinham explorado.
Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.
— É doido, mas bom.
Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.
— Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal...
— É da tua má cabeça, meu filho.
— Qual?
— A tua cabeça não regula.
— Quem sabe?
Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.
— Só caso se o senhor tomar juízo.
— Mas que chama você juízo?
— Ser como os mais.
— Então você gosta de mim?
— E por isso é que só caso depois.
Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.
Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma "relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão". Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.
— Traz algum relógio?
— Trago a minha cabeça.
— Ah! Desarranjada?
— Dizem-no, pelo menos.
— Em todo o caso, há tempo?
— Desde que nasci.
Escrito por Sirlene às 20h25
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O homem de cabeça de papelão (parte III)
— Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem...
Antenor atalhou:
— E o senhor fica com a minha cabeça?
— Se a deixar.
— Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça...
— Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.
— Regula?
— É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.
Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porem, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.
Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República — a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.
Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.
— Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo... Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!
Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.
— Há tempos deixei aqui uma cabeça.
— Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.
— Ah! fez Antenor.
— Tem-se dado bem com a de papelão? — Assim...
— As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.
— Mas a minha cabeça?
— Vou buscá-la.
Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.
— Consertou-a?
— Não.
— Então, desarranjo grande?
O homem recuou.
— Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das idéias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.
Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.
— Faça o obséquio de embrulhá-la.
— Não a coloca?
— Não.
— V.EX. faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.
Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.
— Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.
— Qual! V.EX. terá a primeira cabeça.
Antenor ficou seco.
— Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.
E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável — um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.
João do Rio foi o pseudônimo mais constante de João Paulo Emílio Coelho Barreto, escritor e jornalista carioca, que também usou como disfarce os nomes de Godofredo de Alencar, José Antônio José, Joe, Claude, etc., nada ou quase nada escrevendo e publicando sob o seu próprio nome. Foi redator de jornais importantes, como "O País" e "Gazeta de Notícias", fundando depois um diário que dirigiu até o dia de sua morte, "A Pátria". Contista romancista, autor teatral (condição em que exerceu a presidência da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, tradutor de Oscar Wilde, foi membro da Academia Brasileira de Letras, eleito na vaga de Guimarães Passos. Entre outros livros deixou "Dentro da Noite", "A Mulher e os Espelhos", "Crônicas e Frases de Godofredo de Alencar", "A Alma Encantadora das Ruas", "Vida Vertiginosa", "Os Dias Passam", "As religiões no Rio" e "Rosário da Ilusão", que contém como primeiro conto a admirável sátira "O homem da cabeça de papelão". Nascido no Rio de Janeiro a 05 de agosto de 1881, faleceu repentinamente na mesma cidade a 23 de junho de 1321.
O texto acima foi extraído do livro "Antologia de Humorismo e Sátira", organizada por R. Magalhães Júnior, Editora Civilização Brasileira — Rio de Janeiro, 1957, pág. 196.
Escrito por Sirlene às 20h23
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homem aranha
Composição: Jorge Vercílio
Eu adoro andar no abismo Numa noite viril de perseguição saltando entre os edifícios vi você Em poder de um fugitivo Que cercado pela polícia, te fez refém lá nos precipícios Foi paixão à primeira vista me joguei de onde o céu arranha te salvando com a minha teia Prazer, me chamam de Homem-aranha Seu herói
Hoje o herói agüenta o peso das compras do mês No telhado, ajeitando a antena da tevê Acordado a noite inteira pra ninar bebê
Chega de bandido pra prender, de bala perdida pra deter Eu tenho uma idéia: Você na minha teia Chega de assalto pra impedir, Seja em Brasília ou aqui Eu tive a grande idéia: Você na minha teia Hoje eu estou nas suas mãos Nessa sua ingênua sedução que me pegou na veia Eu tô na tua teia
Escrito por Sirlene às 20h08
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Catavento e Girassol
Leila Pinheiro
Composição: Guinga - Aldir Blanc
Meu catavento tem dentro o que há do lado de fora do teu girassol Entre o escancaro e o contido, eu te pedi sustenido e você riu bemol Você só pensa no espaço, eu exigi duração Eu sou um gato de subúrbio, você é litorânea Quando eu respeito os sinais vejo você de patins vindo na contramão Mas quando ataco de macho, você se faz de capacho e não quer confusão Nenhum dos dois se entrega, nós não ouvimos conselho Eu sou você que se vai no sumidouro do espelho Eu sou do Engenho de Dentro e você vive no vento do Arpoador Eu tenho um jeito arredio e você é expansiva, o inseto e a flor Um torce pra Mia Farrow, o outro é Woody Allen Quando assovio uma seresta você dança havaiana Eu vou de tênis e jeans, encontro você demais, scarpin, soiré Quando o pau quebra na esquina, cê ataca de fina e me ofende em inglês É fuck you, bate bronha e ninguém mete o bedelho Você sou eu que me vou no sumidouro do espelho A paz é feita num motel de alma lavada e passada Pra descobrir logo depois que não serviu pra nada Nos dias de carnaval aumentam os desenganos Você vai pra Parati e eu pro Cacique de Ramos Meu catavento tem dentro o vento escancarado do Arpoador Teu girassol tem de fora o escondido do Engenho de Dentro da flor Eu sinto muita saudade, você é contemporânea Eu penso em tudo quanto faço, você é tão espontânea Sei que um depende do outro só pra ser diferente, pra se completar Sei que um se afasta do outro, no sufoco, somente pra se aproximar Cê tem um jeito verde de ser e eu sou meio vermelho Mas os dois juntos se vão no sumidouro do espelho
Escrito por Sirlene às 19h46
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Meu Jardim
Composição: Vander Lee
Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores
Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores
Refazendo minhas forças, minha fonte, meus favores
Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho Tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho
Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho Estou podando meu jardim Estou cuidando de mim
Onde Deus Possa Me Ouvir
Composição: Vander Lee
Sabe o que eu queria agora, meu bem...? Sair chegar lá fora e encontrar alguém Que não me dissesse nada Não me perguntasse nada também Que me oferecesse um colo ou um ombro Onde eu desaguasse todo desegano Mas a vida anda louca As pessoas andam tristes Meus amigos são amigos de ninguém.
Sabe o que eu mais quero agora, meu amor? Morar no interior do meu interior Pra entender porque se agridem Se empurram pro abismo Se debatem, se combatem sem saber
Meu amor... Deixa eu chorar até cansar
Escrito por Sirlene às 19h42
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